terça-feira, 5 de outubro de 2010

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Tô pagano! A lenda!

A Organização das Nações Unidas para a educação, a ciência e cultura (UNESCO), convocou em 1950 e 1998 a Associação Internacional de Universidades, que estipulou três princípios indissociáveis pelos quais todas as Universidades deveriam nortear-se. A saber:


- O direito de buscar conhecimento por si mesmo e de perseguí-lo até onde a procura da verdade possa conduzir;

- A tolerância em relação a opiniões divergentes e a liberdade em face de qualquer interferência política;

- A obrigação, enquanto instituição social, de promover, mediante o ensino e a pesquisa, os princípios de liberdade e justiça, dignidade humana e solidariedade, e de desenvolver ajuda mútua, material e moral, em nível internacional.

São inerentes à Ética universitária o direito à pesquisa, o pluralismo, a tolerância, a autonomia em relação aos poderes políticos, bem como o dever de promover os princípios de liberdade, justiça, dignidade humana e solidariedade.

A Universidade deve sempre agir e se manifestar a favor da defesa e da promoção dos direitos humanos, aí incluídos os direitos individuais e liberdades públicas, os direitos sociais, econômicos e culturais e os direitos da humanidade.

Ao pensar sobre esses direcionamentos concluímos que em dias como os de hoje em que direitos humanos, tolerância, liberdade, e outras expressões similares estão tão em moda e inerentes a quaisquer discursos de cunho sócio econômico cultural; em que vivemos políticas públicas de pseudo-isonomia educacional como cotas, esquecendo as intermináveis colocações que esse exemplo levaria; em que os questionamentos mundiais sobre desigualdades e intolerâncias são usuais, como por exemplo, as existentes entre china e Tibete; onde exemplos de pessoas apedrejadas nos remetem ao Afeganistão ou à Bíblia; não há espaço para atitudes grotescas, de extrema intolerância com o que se deve ou não vestir, de histeria coletiva absurdamente incoerente, num país democrático e muito menos num ambiente de uma instituição onde as três primeiras letras de seu nome fantasia significam Universidade.

Na construção do projeto pedagógico de uma instituição de ensino superior, pública ou privada, com ou sem fins lucrativos, deve predominar o fio condutor delineado pela UNESCO. Outrossim, as tensões externas, institucionais e práticas, influenciam sobremaneira em seu plano de ação. É também sabido que a influência de fatores cognitivos, afetivos e sociais são preponderantes e essenciais no aprendizado, fazendo com que um ambiente agradável, respeitoso e intelectualmente saudável seja indispensável para o aluno conseguir transpor obstáculos e caminhar no sentido terra espaço passando pelas esferas da memorização, do reconhecimento, do relacionamento, da aplicação, da reflexão e finalmente chegar à esfera da teorização.

Um acadêmico deve ser íntegro, corajoso e perseverante em seus projetos. Lembrando que integridade também retrata a inter-relação com o outro. Fato importantíssimo para apontar desvios comportamentais e evidenciar diferenças entre o discurso e a prática. No tocante à inteligência humana livre e criativa, não há obediência cega a ações pré estabelecidas, sendo este o caso dos animais. Seria então a histeria animalesca e coletiva abordada anteriormente, o inicio de uma ação viral como ocorrido em “A lenda”? Animais, bestas feras, reagem dessa maneira, sem a capacidade de perceber e assimilar seus próprios estímulos dando-lhes um significado. Lembrando que a percepção, de acordo com Thurstone, é uma das sete habilidades mentais primárias.

Outras destas habilidades seriam a verbalização, a fluência e o raciocínio lógico, que muitas vezes nos levam a argumentar e lutar por ideais que acreditamos serem justos, dentro de valores obviamente humanitários, e que nos levariam a algum tipo de melhoria em nossa condição atual. Não uma melhoria facilitadora da mediocridade, mas algo que nos traga um reforço no caminho daqueles valores anteriormente expostos pela UNESCO. Não é uma idéia compatível com tais princípios, por exemplo, uma mudança na forma de obtenção de um sistema de notas em uma Universidade, com o objetivo de que a quantificação fique incoerente com os aspectos qualitativos, de sorte que um mínimo de esforço reflita num ótimo rendimento. Muito menos coerente é a idéia fascista de que quem não concordar com tal mudança, não quiser participar de uma reação animalesca e tentar se retirar, merece ser desrespeitado, humilhado e espancado. Mas, Will Smith sabia que não deveria sair à noite e mais ainda, se fosse impedido de passar por cones de plástico não deveria preocupar-se em retirá-los, em não destruí-los, não deveria importar-se com o que poderia acontecer com seu carro, ou em ter atitudes que pudessem ser mal interpretadas. Oh! Que absurdo! Destruiu os cones... . Will Smith não esqueceria que os “animais” estavam soltos e se o pegassem, o retirariam do carro, o espancariam e gritariam euforicamente como numa arena grega, apenas pelo prazer da violência.

Será que estamos nos últimos dias do diálogo universitário? Chegamos à total falência da palavra no ensino superior? Claro que não! Atitudes de certos grupos, de nichos nazistas, não podem ser generalizadas. Na antítese à entropia, nossa razão vital nos fará acordar e voltar à ordem, ao diálogo, à palavra. Toda instituição tem nuas normas. Nas instituições de ensino as ações normativas consentidas e legítimas são importantes e necessárias. Elas são a base de algo que em nossos dias ganhou uma conotação que nos faz repudiá-la, rejeitá-la, esquecendo de sua importância na criação da ordem: a autoridade. Jargões como: “Não ao desrespeito aos âmbitos!”, “Não à extrapolação dos limites!”, “Não à intolerância!”, são ditos hoje com paixão, garra e muita, muita violência, desrespeito, extrapolação e intolerância. Que incoerente! Que autoritário! Onde está a autoridade na educação para combater esse autoritarismo? Não acredito que as bestas feras de “nível” superior possam passar impunes a atitudes de extrema violência física e moral. Seria surreal pensar que uma “autoridade” institucional, como por exemplo, um vice-reitor, se questionado sobre quais atitudes deveriam ser tomadas frente à violência, ao desrespeito, à extrapolação dos limites, à intolerância, se caberia expulsão, respondesse que não via motivos para isso. Afinal de contas, eles tão pagano! Né Manu?! É Nois!

Um desabafo sobre tentativas e erros, sem perspectivas de sair do looping

Atualmente passamos por um processo delicado em nossas instituições de ensino, que se torna mais evidente no ensino médio e superior. A educação deveria ter o aspecto transformador sempre presente e ainda como um instrumento motivacional em uma ação conjunta educador-educando, que é inerente à própria condição humana. Contudo nos deparamos hoje, em nossas salas de aula, com uma inércia perturbadora, que parece necessitar de uma força de milhões de Newtons para causar alguma reação nesse sistema que aparentemente ficaria sem mudança até o Apocalipse. O fator cultural mostra relevante contribuição nesse ambiente onde os valores principais são os placares do brasileirão, os grupos de forró, ou o nome do barzinho da esquina.


Desde a mudança na LDB há uma década, os “antigos” objetivos específicos e gerais do ensino médio sofreram uma metamorfose, saíram do casulo, e viraram as competências e habilidades que devem ser trabalhadas com os alunos, visando uma melhor compreensão do porquê e do praquê, fazendo sempre que possível um link com nossa vida, nossas necessidades, tornando o conhecimento desenvolvido nas escolas mais próximo do dia a dia do aluno. Contudo, continuamos a escutar “por que devo aprender isso?”; “pra que devo aprender isso?”, inclusive em disciplinas como Português. Isso me faz pensar sobre os projetos de vida da maioria dos alunos que compartilham conosco parte de seus dias no decorrer dos anos letivos. Onde está a ação necessária para chegar ao projeto, como diz Hannah Arendt? Ou ainda, onde está o próprio projeto? Na verdade, conseguimos verificar a existência de projetos comuns, que infelizmente sempre retratam algo do tipo: Quero isso, se não der muito trabalho, senão fico com qualquer outra coisa.

Tanto no ensino médio como no superior, nossos alunos são exemplos de perfeitos cartesianos. Sempre colocam a culpa “lá para trás”. Talvez e muito provavelmente por influência de professores com o mesmo discurso. Contudo, quando tentamos “quebrar” essa cadeia, dizendo: “tudo bem, então vamos aprender agora, mas vocês necessitam fazer sua parte para absorver esse conhecimento, ou seja, devem trabalhá-lo em casa”, nos deparamos com outras colocações: Não tenho tempo! De qualquer forma tenho dificuldade! Não consigo aprender mesmo! Não, não, não... . Por mais que tentemos mostrar a relevância, a necessidade, dar motivação, nossa oratória esbarra num campo de força invisível dos valores de vida. Conhecimento e cultura hoje para serem importantes, devem estar associados a algum fim material, um negócio, tem que ter retorno, senão são simplesmente algum tipo de lixo intelectual, coisa de “nerd”. Vamos Habermas, ajude-nos a ajudá-los! Ficamos mais tristes ainda ao constatar que tais imediatismos prosseguem no ensino superior, em particular nas instituições privadas, onde o professor não pode exigir muito, por que o aluno não gosta de tal exigência, e assim o primeiro não ficará muito tempo ministrando aquela cadeira, já que na prática o “cliente” sempre tem razão. Triste, mas real! Aonde isso vai parar? Escuto frases como: “deixa para lá, o mercado exclui!”. Contudo, a preocupação não é essa, e sim o fato de que pessoas com esse tipo de formação, de valores, podem perpetuá-los para seus filhos, sobrinhos, netos... . E o amanhã? Ah! O amanhã a Deus pertence! Parece que só Ele mesmo para nos tirar desse looping.

Será que hoje em dia diríamos que nossos alunos perderam sua consciência humana? Nossa! Que forte! Que triste! De acordo com José Antonio Marina, isso seria ter vontade de ter vontade de aprender. Claro que a resposta a essa pergunta é não. Então o que está acontecendo? Que momento histórico de nossa educação estamos vivenciando? Escutamos sempre nossos pais dizendo: “Na minha época aprendia-se nas escolas”. Será que a cultura e os valores sociais também não eram outros?! O pro jactum individual do aluno naqueles dias não era mais claro? Pelo que escuto, as pessoas realmente se projetavam para algo, agiam, promoviam ações, tentavam alcançar seus objetivos. Óbvio que hoje ainda acontece isso, mas parece que os objetivos são mais próximos. Em vez de adquirir cultura, tanto para o factual como para a uma possível ficção, ficamos apenas com possuir o diploma de... . Como não podemos ter projetos pelos outros, a conclusão que tiro é que nossos projetos como educadores não estão compatíveis com os projetos da maioria de nossos alunos. Se nós somos os intermediadores, nesse caso quem fará esse papel? Devemos então refletir um pouco sobre quais as metas que valem? O que deve ser conservado e o que deve ser transformado? O que cultivar e o que combater? Talvez devêssemos passar de professor cidadão para professor pessoal, de acordo com a visão de Mounier. Doarmos-nos mais, compreendermos mais, aumentarmos nosso campo de responsabilidades. Como isso é algo difícil, doloroso, pois parece que já fazemos isso. Contudo, como educadores devemos ir além. A pergunta agora é: Até onde? Existem limites?

Por último gostaria de discorrer um pouco sobre o discurso e a prática pedagógica atual no sentido das imagens que fazemos do conhecimento. Será que a grande maioria dos educadores no Brasil hoje ainda não é formada de puros encanadores, preocupados em não ter “vazamentos” e fazer com que o reservatório fique bem cheio? Mas, como criticá-los se nossos governantes, nossos líderes nas Secretarias Municipais e Estaduais e no Ministério da Educação, também são na prática grandes “baldistas”, se é que existe esse termo? O mundo passa por uma pandemia, a gripe suína, e um diz de forma sensata: “Não precisa se preocupar em cumprir o conteúdo, reprojetaremos ano que vem!”, outro para mostrar que manda mais, completa: “não é assim! todas as escolas devem cumprir com seus conteúdos, sem deixar nada para o ano que vem!”. Esse último ainda quer avaliar todas as escolas de ensino médio e fundamental com um único instrumento, não importando qual o projeto pedagógico de cada uma. Diz para encher o balde, institui um indicador de essa é melhor, essa é pior, e é a maior “autoridade” da educação no Brasil, mesmo sem demonstrar responsabilidade alguma.

Na era da educação em rede, da trans, multi, intra e interdisciplinaridade, notamos que a cultura e os valores de um povo, pertencentes ao tácito na visão do iceberg do conhecimento, podem influenciar tanto positiva como negativamente o conhecimento explícito, a educação formal. De acordo com Polanyi cada um sabe mais do que acha que sabe, então espero chegar o dia de descobrirmos que sabemos lidar com os conflitos que vivenciamos em sala de aula, e confortarmos nossos corações com a resposta à pergunta inicial: como sair do looping?

Vamos malhar!!!!! Clique no link e baixe os arquivos com exercícios

http://www.4shared.com/document/2o4BkZbT/MAT.html