Atualmente passamos por um processo delicado em nossas instituições de ensino, que se torna mais evidente no ensino médio e superior. A educação deveria ter o aspecto transformador sempre presente e ainda como um instrumento motivacional em uma ação conjunta educador-educando, que é inerente à própria condição humana. Contudo nos deparamos hoje, em nossas salas de aula, com uma inércia perturbadora, que parece necessitar de uma força de milhões de Newtons para causar alguma reação nesse sistema que aparentemente ficaria sem mudança até o Apocalipse. O fator cultural mostra relevante contribuição nesse ambiente onde os valores principais são os placares do brasileirão, os grupos de forró, ou o nome do barzinho da esquina.
Desde a mudança na LDB há uma década, os “antigos” objetivos específicos e gerais do ensino médio sofreram uma metamorfose, saíram do casulo, e viraram as competências e habilidades que devem ser trabalhadas com os alunos, visando uma melhor compreensão do porquê e do praquê, fazendo sempre que possível um link com nossa vida, nossas necessidades, tornando o conhecimento desenvolvido nas escolas mais próximo do dia a dia do aluno. Contudo, continuamos a escutar “por que devo aprender isso?”; “pra que devo aprender isso?”, inclusive em disciplinas como Português. Isso me faz pensar sobre os projetos de vida da maioria dos alunos que compartilham conosco parte de seus dias no decorrer dos anos letivos. Onde está a ação necessária para chegar ao projeto, como diz Hannah Arendt? Ou ainda, onde está o próprio projeto? Na verdade, conseguimos verificar a existência de projetos comuns, que infelizmente sempre retratam algo do tipo: Quero isso, se não der muito trabalho, senão fico com qualquer outra coisa.
Tanto no ensino médio como no superior, nossos alunos são exemplos de perfeitos cartesianos. Sempre colocam a culpa “lá para trás”. Talvez e muito provavelmente por influência de professores com o mesmo discurso. Contudo, quando tentamos “quebrar” essa cadeia, dizendo: “tudo bem, então vamos aprender agora, mas vocês necessitam fazer sua parte para absorver esse conhecimento, ou seja, devem trabalhá-lo em casa”, nos deparamos com outras colocações: Não tenho tempo! De qualquer forma tenho dificuldade! Não consigo aprender mesmo! Não, não, não... . Por mais que tentemos mostrar a relevância, a necessidade, dar motivação, nossa oratória esbarra num campo de força invisível dos valores de vida. Conhecimento e cultura hoje para serem importantes, devem estar associados a algum fim material, um negócio, tem que ter retorno, senão são simplesmente algum tipo de lixo intelectual, coisa de “nerd”. Vamos Habermas, ajude-nos a ajudá-los! Ficamos mais tristes ainda ao constatar que tais imediatismos prosseguem no ensino superior, em particular nas instituições privadas, onde o professor não pode exigir muito, por que o aluno não gosta de tal exigência, e assim o primeiro não ficará muito tempo ministrando aquela cadeira, já que na prática o “cliente” sempre tem razão. Triste, mas real! Aonde isso vai parar? Escuto frases como: “deixa para lá, o mercado exclui!”. Contudo, a preocupação não é essa, e sim o fato de que pessoas com esse tipo de formação, de valores, podem perpetuá-los para seus filhos, sobrinhos, netos... . E o amanhã? Ah! O amanhã a Deus pertence! Parece que só Ele mesmo para nos tirar desse looping.
Será que hoje em dia diríamos que nossos alunos perderam sua consciência humana? Nossa! Que forte! Que triste! De acordo com José Antonio Marina, isso seria ter vontade de ter vontade de aprender. Claro que a resposta a essa pergunta é não. Então o que está acontecendo? Que momento histórico de nossa educação estamos vivenciando? Escutamos sempre nossos pais dizendo: “Na minha época aprendia-se nas escolas”. Será que a cultura e os valores sociais também não eram outros?! O pro jactum individual do aluno naqueles dias não era mais claro? Pelo que escuto, as pessoas realmente se projetavam para algo, agiam, promoviam ações, tentavam alcançar seus objetivos. Óbvio que hoje ainda acontece isso, mas parece que os objetivos são mais próximos. Em vez de adquirir cultura, tanto para o factual como para a uma possível ficção, ficamos apenas com possuir o diploma de... . Como não podemos ter projetos pelos outros, a conclusão que tiro é que nossos projetos como educadores não estão compatíveis com os projetos da maioria de nossos alunos. Se nós somos os intermediadores, nesse caso quem fará esse papel? Devemos então refletir um pouco sobre quais as metas que valem? O que deve ser conservado e o que deve ser transformado? O que cultivar e o que combater? Talvez devêssemos passar de professor cidadão para professor pessoal, de acordo com a visão de Mounier. Doarmos-nos mais, compreendermos mais, aumentarmos nosso campo de responsabilidades. Como isso é algo difícil, doloroso, pois parece que já fazemos isso. Contudo, como educadores devemos ir além. A pergunta agora é: Até onde? Existem limites?
Por último gostaria de discorrer um pouco sobre o discurso e a prática pedagógica atual no sentido das imagens que fazemos do conhecimento. Será que a grande maioria dos educadores no Brasil hoje ainda não é formada de puros encanadores, preocupados em não ter “vazamentos” e fazer com que o reservatório fique bem cheio? Mas, como criticá-los se nossos governantes, nossos líderes nas Secretarias Municipais e Estaduais e no Ministério da Educação, também são na prática grandes “baldistas”, se é que existe esse termo? O mundo passa por uma pandemia, a gripe suína, e um diz de forma sensata: “Não precisa se preocupar em cumprir o conteúdo, reprojetaremos ano que vem!”, outro para mostrar que manda mais, completa: “não é assim! todas as escolas devem cumprir com seus conteúdos, sem deixar nada para o ano que vem!”. Esse último ainda quer avaliar todas as escolas de ensino médio e fundamental com um único instrumento, não importando qual o projeto pedagógico de cada uma. Diz para encher o balde, institui um indicador de essa é melhor, essa é pior, e é a maior “autoridade” da educação no Brasil, mesmo sem demonstrar responsabilidade alguma.
Na era da educação em rede, da trans, multi, intra e interdisciplinaridade, notamos que a cultura e os valores de um povo, pertencentes ao tácito na visão do iceberg do conhecimento, podem influenciar tanto positiva como negativamente o conhecimento explícito, a educação formal. De acordo com Polanyi cada um sabe mais do que acha que sabe, então espero chegar o dia de descobrirmos que sabemos lidar com os conflitos que vivenciamos em sala de aula, e confortarmos nossos corações com a resposta à pergunta inicial: como sair do looping?
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